Estava dirigindo o seu carro conversível em avenidas largas. Dirigia do lado direito, e o teu corpo estava do outro lado me fitanto, sempre olhando pra frente. Nunca pra trás. Eu só podia enxergar a frente através do grande vão do volante gigante. Sempre tive esse meio metro de vida em larga escala de existência. Era um carro movido à energia solar ou qualquer coisa do tipo, tinha alguns botões laterais. Realmente estava desesperada por velocidade e você me dizia ‘calma’, eles não vão nos pegar. Sua risada era um misto de calma com um quê diabólico. Você sempre faz isso para me manter excitada, para me prender a você. Prender, não me prendia. É que tudo com você cheira o fim. E como o fim é ansioso, e como o fim é desejado para novos começos, eu ficava ali, vivendo, vivendo e comendo minhas horas com você. Enquanto eu dirigia loucamente pelas largas avenidas afim de cair na rodovia expressa, aquele sol claro e transparente deixava a minha alma sem culpa, sem medo. A única coisa que estive avaliando o tempo era o meu próprio caráter, a minha moral. Tentava ignorar minhas próprias cobranças, mas não adiantava. Tentava recorrer à filosofia, ao niilismo desgraçado. Mas eu sei que isso também não é a verdade, a minha verdade. A verdade estava fora daquelas páginas e à frente das placas e kilômetros que me conduziam a mim mesma, ao meu tombo. A minha salvação era certamente a minha ruína. Estar apaixonada por você era horrivelmente perfeito. Um pesadelo maquiado; eu sabia que não era um sonho maquiado, um sonho a ser revelado. Mas queria ter certeza. Porque viver e seguir o fluxo é fato. Mas ir contra a correnteza da incerteza era a única coisa que eu conseguia desejar. Mas eu estava ali, dirigindo um carro possivelmente roubado. Com muitas histórias contadas de trás para frente na bagagem fantasma. Mesmo assim, você sempre me conduz pela porta da frente.
Esse foi meu sonho, e acabou sem fim. Com a luz nos olhos.
Há mil verdades. E eu não sou nenhuma delas, à espera de uma ÚNICA. Eu sou a espera mesmo não esperando pelo fio condutor. Eu também sou o fio. Eu sou você, o carro, a estrada e o sol claro. Não há eu. O eu é o resto. O ‘resto’ é o que sou.
Ouvindo: Melody Gardot, Cat Power e afins.
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