Como você chega rasgada depois de alguns fios de álcool e vento gelado. Como se à noite não bastasse, como você não se divertisse. Embaixo do abajur branco para que eu a veja, você tenta me entreter como se eu quisesse entretenimento. Você quer platéia, eu quero dormir.
Tão tola tão bela. Uma poetisa sem a escrita. Meu sono quer velar sua aura acesa.
Embora abalada de sono, fico a espreita em saber se vai se irritar ou frustrar com a minha rejeita. E a minha oração da noite é a satisfação, é vê-la cair em compreensão da própria tolice em tentar. Mesmo insatisfeita com suas andanças com poucas respostas, percebeu no quente do quarto que tudo o que precisava estava ali. Amei-a nesse momento, como a mãe que ama a criança.
Sei que amanha pode vir a pensar: ‘pra que vivo então, se tudo o que eu preciso está aqui?’. É, eu também penso nisso. E soa contraditório. Já descartei o suicídio e sei que você nem vai pensar nisso.
Estou sempre querendo além do que preciso. E o que preciso é de um pouco de paciência, um punhado de arroz, milho e leite morno. Às vezes, um pouco de mimo. Às vezes sou plebéia, às vezes sou rainha. Sou o que a alma pede, mas só tenho o que posso ter. Na maioria das vezes não tenho muita coisa, nem mesmo a sua presença e seus egocentrismos na madrugada.
Mas não vou deixar que você fale o que quiser para que volte amanha sabendo que terá olhos e ouvidos.
Você vai, mas eu fico porque já sei que não há promessas outside.
Não vou deixar de permitir que minha criança se aventure e até mesmo morra. Não vou deixar de permitir que ela plante a solidão em seu próprio coração. É preciso que ela morra.
É preciso que ela vá pra voltar, e não que ela fique para um dia se deixar: ao relento. Protejo-te em silêncio mesmo que custe a minha solidão.
Nossos corpos estão presentes essa noite, mas a presença está morta. Dentro do mesmo quarto há mil lugares transitáveis e outros de difícil acesso. Mil universos num só lugar.
Seu rosto está desfigurado e a cama está vazia. Um aperto no peito e um adeus sem jeito com uma esperança que soa triste. Que vá sem deixar migalhas! Não, não vou blasfemar.
Vou compreender que cada macaco deve ficar em seu próprio galho e que só um galho grande e forte serve pra dois. E nesta cama só cabe um.
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